No programa “Futebol em Contexto”, da Trivela, que vai ao nesta segunda-feira, às 19h, no Youtube, o colunista Tim Vickery e o apresentador Nelson Coltro debateram como a Bola de Ouro deixou de premiar o encantamento para premiar números e títulos. Para o jornalista inglês, o futebol importou dos esportes americanos a mania de transformar tudo em estatística, o que tira do jogo sua maior virtude, a fluidez.
Ele relembrou os anos de Ronaldinho Gaúcho, eleito melhor do mundo sem conquistar Champions League ou Copa do Mundo, e foi direto ao ponto: os dados “enganam a gente”.
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Bola de Ouro: de Ronaldinho à era do grande título
O programa abriu com uma cena de 19 de novembro de 2005, quando Ronaldinho marcou dois gols contra o Real Madrid no Santiago Bernabéu e saiu aplaudido pela torcida rival. Dias depois, recebeu a Bola de Ouro. Naquela temporada, assim como na anterior, o brasileiro não ganhou Champions nem Copa do Mundo. O mesmo valeu para Ronaldo, em 1997, e para Rivaldo, que foi eleito mesmo eliminado na primeira fase da Champions.
O cenário hoje é outro. Benzema venceu em 2022 com a Champions, Messi em 2021 e 2023 com a Copa América e a Copa do Mundo, Rodri em 2024 com a Eurocopa e Dembélé em 2025 com a Champions. Para Vickery, a mudança tem origem fora do futebol.
“Eu acho que é outra coisa que a gente acabou importando dos esportes norte-americanos, onde é muito mais fácil transformar tudo em número. Futebol é um esporte que tem muito mais fluidez. O que encanta, muitas vezes, não é o que você faz, é como você faz, e isso é difícil colocar em número. Aqueles dois anos de Ronaldinho Gaúcho foram extraordinários. Tantas pessoas da tua idade, ou um pouco mais jovens, se apaixonaram pelo futebol exatamente ali, assistindo a ele. Então a influência dele é enorme e vai muito além de quem ganhou tal taça”, afirmou.
Questionado se o Ronaldinho de 2005 seria eleito pelos critérios atuais, o colunista admitiu a possibilidade, desde que não houvesse um concorrente com um grande título. “Num ano assim, eu acho que talvez. Porque não tem um grande candidato, então isso abre espaço”, disse.
‘Encantamento, você nunca vai colocar em número'
Vickery contou uma história vivida no Maracanã para mostrar os limites das estatísticas. “Eu lembro que, anos atrás, estava no Maracanã ao lado de uma equipe que colhia os números do jogo. Naquela época não era inteligência artificial, eram pessoas. Um falava: ‘passe certo do jogador sete’. Eu, assistindo ao jogo, pensava: ‘aquele passe foi uma droga’. Tudo bem, chegou no jogador vestindo a camisa da mesma cor, mas ele é canhoto e a bola chegou no pé direito dele. Foi um passe de três metros, tão perto que chamou a marcação, e tinha outra opção na diagonal que teria sido muito melhor. Então como colocar tudo isso em número? Até a efetividade, às vezes, é difícil colocar em número no futebol. Encantamento, você nunca vai colocar em número”, afirmou.
Para o jornalista, reduzir o debate a conquistas esvazia o que torna o futebol especial. “Eu acho que, quando fica somente ‘tal jogador ganhou tal coisa’, é uma frieza que tira um pouco da beleza, da fluidez do futebol, que é um diferencial muito importante em relação aos outros esportes”, completou.
Nelson lembrou um exemplo recente dessa distorção. Em um jogo de Champions entre PSG e Bayern, Neymar dominou a partida, mas recebeu nota 4.7 em um aplicativo de estatísticas, entre as piores em campo, por ter perdido chances claras e não ter participado diretamente de gols. O apresentador também citou a popularização de plataformas estatísticas e o debate nas redes sociais, onde qualquer torcedor encontra um número em segundos para sustentar sua tese.
‘Os dados enganam a gente'
Vickery explicou que seu método de análise continua o mesmo de sempre. “A minha maneira de assistir futebol não mudou. Eu faço as mesmas coisas: boto um campinho com a formação base, identifico os canhotos e tento identificar a ideia, o que o time está tentando fazer. Eu sempre vejo assim: é uma luta de uma ideia contra outra ideia. Não tenho a menor ideia de como você coloca número em cima disso. Deveria incorporar uma abordagem mais moderna, com números? Talvez. Mas, pra mim, a coisa fundamental, antes de tudo, é a ideia”, disse.
E completou com uma provocação. “Até porque eu acho que os dados enganam a gente. Eles enganam a gente tipo 45,8% do tempo”, brincou.
A edição de 2026 ilustra bem o dilema, segundo o programa. Entre os favoritos, Harry Kane representa os números, com 73 gols em 65 jogos por clube e seleção. Lamine Yamal é o nome do encantamento, aquele que, nas palavras de Nelson, “faz as pessoas pararem” para assistir. Rodri é o homem do título, eleito melhor jogador da Copa do Mundo pela FIFA.
Os critérios oficiais da France Football incluem desempenho individual, conquistas da equipe e “classe e fair play”, sem peso definido para cada um. Para Vickery, isso deixa a escolha nas mãos de cada jurado. “Então, na verdade, é uma subjetividade total”, resumiu.

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